"Palavrão! Palavrão", gritava a criança feliz da vida, pois a mãe não conseguia proibi-la de pensar palavras horríveis. E a mãe, danada da vida, queria que 'palavrão' fosse um palavrão, para poder colocar a filha de castigo.
Foi aí que ela colocou a criança sentada de frente para a parede: era mãe e não precisava dar explicações a uma fedelha.
A fedelha, olhando para o branco da parede, só conseguia pensar, cada vez mais forte: "Palavrão! Palavrão! Palavrão beeeeem cabeludo!!!!"
E a mãe não entendia porque a filha sorria tanto, se estava de castigo.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
ado. a-ado. cada um no seu quadrado.
Ele chegou e a casa estava vazia. A mulher não estava nua, pronta para recebê-lo. A cama estava feita, sem nenhuma ruga na colcha: sinal de que não haviam respirado por ali esses três dias que esteve fora. Apoiou definitivamente a mala no chão e ainda pensou duas vezes se tiraria de dentro dela as roupas que iriam para a máquina de lavar ou se deixaria para depois, tomando logo o banho que o calor da cidade tornava urgente.
Com um pé arrastando o calcanhar do outro lado, tirou cada tênis e os dedos suados encolheram-se, experimentando a liberdade depois das 3 horas e meia de viagem. Estava tudo do jeito que deixara. Até o livro na diagonal, posição escolhida intencionalmente, para ter certeza, na chegada, se a casa tivera ou não recebido alguma visita.
Ela não foi; a recusa se fez concreta. A mulher disse não e agora ele estava sem abraço. Sabia que o desejo dela era o de ter ido junto, participado da viagem, mas isso ele não poderia oferecer: esse convívio não cabia no gostar que ele tinha reservado para ela. E cada um gostava sozinho, um do outro, ainda que ao mesmo tempo, juntos. Ele percebia o quanto aquela mulher olhava dentro de seus olhos e pedia com o corpo para que ele a amasse. Ele entendia, mas não podia. Se pudesse, não seria mais ele, pois já seria alguém que sentia amor por ela. E ela, por sua vez, deixaria de ser aquela que tinha, na ausência desse amor, o maior brilho de esperança no olhar. Eles precisavam continuar assim para manter a essência que fazia dessa história o que ela realmente era, com seus limites, auges, intervalos.
Ela precisava fugir de casa pois precisava de colo e temia não bastar o cheiro e as cores das paredes. Temia querer ficar e não sair, temia precisar de mais e sabia que essa necessidade não tardaria em aparecer. Suou as têmporas para negar a oferta e agradecer. Dormir no quarto vazio e ouvir os barulhos de fora sem que o ombro sardento a acolhesse parecia sem sentido e tentador.
Deitada na grama, com os olhos apontando para o céu, tentou contar nos dedos os momentos em que quisera dizer algo para alguém e optou por calar-se. Descobriu que eles somavam mais de vinte, seria mais conveniente contar nas gramas, que eram incontáveis. Suspirou alto. Voltou para casa pedalando sob o sol e encontrou o quarto vazio, também. Desejou que ele estivesse pensando nela e pensou mais forte ainda, como que empurrando os átomos do pensamento para o espaço em que ele estivesse ocupando naquele momento, materializando o sorriso que gostaria de, então, oferecê-lo.
Tomaram banho e dormiram ao mesmo tempo, sem um saber do outro. Estavam muito cansados.
Com um pé arrastando o calcanhar do outro lado, tirou cada tênis e os dedos suados encolheram-se, experimentando a liberdade depois das 3 horas e meia de viagem. Estava tudo do jeito que deixara. Até o livro na diagonal, posição escolhida intencionalmente, para ter certeza, na chegada, se a casa tivera ou não recebido alguma visita.
Ela não foi; a recusa se fez concreta. A mulher disse não e agora ele estava sem abraço. Sabia que o desejo dela era o de ter ido junto, participado da viagem, mas isso ele não poderia oferecer: esse convívio não cabia no gostar que ele tinha reservado para ela. E cada um gostava sozinho, um do outro, ainda que ao mesmo tempo, juntos. Ele percebia o quanto aquela mulher olhava dentro de seus olhos e pedia com o corpo para que ele a amasse. Ele entendia, mas não podia. Se pudesse, não seria mais ele, pois já seria alguém que sentia amor por ela. E ela, por sua vez, deixaria de ser aquela que tinha, na ausência desse amor, o maior brilho de esperança no olhar. Eles precisavam continuar assim para manter a essência que fazia dessa história o que ela realmente era, com seus limites, auges, intervalos.
Ela precisava fugir de casa pois precisava de colo e temia não bastar o cheiro e as cores das paredes. Temia querer ficar e não sair, temia precisar de mais e sabia que essa necessidade não tardaria em aparecer. Suou as têmporas para negar a oferta e agradecer. Dormir no quarto vazio e ouvir os barulhos de fora sem que o ombro sardento a acolhesse parecia sem sentido e tentador.
Deitada na grama, com os olhos apontando para o céu, tentou contar nos dedos os momentos em que quisera dizer algo para alguém e optou por calar-se. Descobriu que eles somavam mais de vinte, seria mais conveniente contar nas gramas, que eram incontáveis. Suspirou alto. Voltou para casa pedalando sob o sol e encontrou o quarto vazio, também. Desejou que ele estivesse pensando nela e pensou mais forte ainda, como que empurrando os átomos do pensamento para o espaço em que ele estivesse ocupando naquele momento, materializando o sorriso que gostaria de, então, oferecê-lo.
Tomaram banho e dormiram ao mesmo tempo, sem um saber do outro. Estavam muito cansados.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Sabe quando você acorda com uma música na cabeça?
Pais E Filhos
Renato Russo
Composição: (letra: Renato Russo - Música: Dado Villa-lobos/renato Russo/marcelo Bonfá)
Estatuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.
Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Me diz porque que o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Sou uma gota d'agua
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não lhe entendem.
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?
Renato Russo
Composição: (letra: Renato Russo - Música: Dado Villa-lobos/renato Russo/marcelo Bonfá)
Estatuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.
Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.
Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Me diz porque que o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.
Sou uma gota d'agua
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não lhe entendem.
Mas você não entende seus pais.
Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Novo Mantra
| Envelhecer |
| Arnaldo Antunes / Ortinho / Marcelo Jeneci |
| a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer a barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer eu quero que o tapete voe no meio da sala de estar eu quero que a panela de pressão pressione e que a pia comece a pingar eu quero que a sirene soe e me faça levantar do sofá eu quero por Rita Pavone no ringtone do meu celular eu quero estar no meio do ciclone pra poder aproveitar e quando eu esquecer meu próprio nome que me chamem de velho gagá pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé com os ralos fios de cabelo sobre a testa que não pára de crescer não sei porque essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer eu quero que o tapete voe… © Rosa Celeste Editora (Universal) / Setembro Ed. (DC.Consultoria) BR-RC7-09-00007 Ficha Técnica da Faixa Arnaldo Antunes: Voz Edgard Scandurra: Guitarra, violão de 12 cordas e vocais Betão Aguiar: Baixo Chico Salém: Violão, guitarra e vocal Marcelo Jeneci: Órgão, piano, bateria eletrônica, palmas e vocais Curumin: Bateria, percussão e vocais |
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Homem nu
O homem nu não está pelado; o homem nu está inteiro.
Ele é de verdade, é rasgado, livre.
O homem nu é despido. De tudo.
O homem nu existe, dá, recebe. Oferece, bebe. O homem nu transcende, homem nu é deleite, é de quatro, é em pé, é sentado. Ele se mexe, sorri, ajeita os óculos. O homem nu tem medo, pede desculpas e sim, o homem nu fica pelado. Homem nu é macho, homem nu é leve; homem nu é bom. Demais.
Homem nu é homem de verdade, uma delícia de verdade de homem, uma verdade de homem delícia.
Homem nu é verbo. Homem nu delicía.
Homem nu é bom de falar. ho-mem-nu. Parece beijo com lambida. Homem nu merece beijo com lambida. Todos os beijos com lambida que uma mulher tenha para dar.
Homem nu pede, homem nu atende, o homem nu é corajoso, homem nu é fogo. Homem nu é lindo, homem nu me treme. Não se encosta no homem nu e ainda assim, se sente. Homem nu me molha, homem nu me olha, homem nu me come, homem nu me tem.
E eu não canso de falar homem nu.
O homem nu é foda.
Meuhomemnu.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Mais uma virginiana.
Ela me deu colo, me deu peito, cama, cafuné, amor. Ela me deu a vida, a luz. Esperou por mim e me embalou enquanto pôde. Curou meus machucados de infância, e, mesmo quando eles apareceram alguns anos depois, o carinho depositado à adulta não foi menor, mais seco ou menos voluntário.
Minha mãe, minha Rose, mãezinha, que hoje faz aniversário.

Parabéns que o dia é seu!
Minha mãe, minha Rose, mãezinha, que hoje faz aniversário.

Parabéns que o dia é seu!
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Até quando esperar?
[Do feriado.]
Estava eu, há poucos minutos, num momento mulherzinha com uma grande amiga: bebendo vinho com um filme há horas no pause, como se fôssemos engatar algum momento, mas não. Queríamos rir, falar, nos lamentar, reclamar, pedir opiniões, desabafar, checar e-mail, distrair.
Mania de amiga.
Perguntávamos uma à outra e, no fundo, uma perguntava a si própria: por que desencontro? Já não chega, já não levamos tudo o que podíamos? Quando arriscar, quando não ir, quando parar, quando se cansar? Ela tentou me (se) tranquilizar e falou:
– ..., se bem que uma amiga me disse que existem várias mulheres dentro da gente e, a cada história, matamos uma delas. Sempre na próxima história a gente mata mais uma.
Eu, ainda decidindo se estava diante de uma boa notícia ou não, perguntei:
– Será?
Um pequeno silêncio se formou (quem me conhece sabe que só é possível, comigo por perto, um bem pequeno silêncio; essa coisa de nãofalar nunca esteve entre minhas maiores aptidões) antes que eu concluísse:
– Tá bem. Eu topo. Mas pergunta pra essa amiga aí quantas a gente precisa aniquilar. Eu tenho de saber se pra mim faltam 15, 35, 80 ou 417!
Depois de algumas gargalhadas, ainda meio inconformadas e com os dentes levemente arroxeados de vinho, começamos a calcular quanto tempo ainda precisaríamos, tendo em vista que cada mulher dessa carece de uns seis meses de história, no mínimo, antes do último suspiro.
Estava vendo a hora em que marcaríamos um carnaval na Bahia para agilizar o processo: tentar matar umas seis safadas em uma semana. Uma espécie de paredão interior, um corredor polonês sentimental. Foi um tal de fazer contas, estimativas, pensar em desenvolver planilhas, investigar cotas.
Chegamos a uma conclusão que poderia ser resumida da seguinte forma: “Amiga, tâmu matando mulher dos outros, não é possível! Tem gente que não matou essa mulherada toda ainda e tá aí tirando onda”. E desandamos a lembrar histórias alheias inexplicavelmente românticas.
Pensei na última palhaça morta. Tal pensamento acabou por me lembrar que a sirigaita interna anterior à última, a mulher da vez na fila da entrada do meu coraçãozinho, foi maldita. A danada galhofou a minha vida, me fez descer abaixo do nível do mar, dilacerou partes essenciais de autoestima, avacalhou todas as possíveis emoções do tempo que ela durou.
Não, amiguinha. Só nessa história aí morreu o equivalente a uma tribo indígena. Não era uma só mesmo. Matei umas dez mulheres da Deborah Secco, outras 17 da Britney, sem contar a bela contribuição que dei para quitar as fêmeas interiores de quatro ou cinco colegas do trabalho.
Eu e minha amiga, na verdade, não chegamos a uma conclusão. Ela ficou de perguntar para a dona da teoria se havia alguma informação na internet, alguma dica sobre o grupo seguidor da crença das muitas-mulheres-que-habitam-nosso-corpo-e-vão-morrendo-a-cada-história-nossa-de-vida.
O filme também não vimos. O vinho acabou, a fumaça saiu pela janela, continuamos sem resposta para nossas questões mais profundas. O combinado foi que eu voltaria com um texto, e ela, com a resposta do grande enigma.
Não sei se quero saber. Sério. Medo de descobrir que, depois de essa de agora morrer, ainda me restarão 55. Porque é a minha cara a ordem de grandeza ser daí para cima. Apenas mais cinco ou logo-a-próxima seria moleza demais. E nesse campo, pelo menos, minha vida nunca desfrutou de muita moleza.
Abraçamo-nos, ela voltou para casa, não sem antes deixarmos combinada a praia do dia seguinte: topei a ida ao Leblon, dentro do fusca, com um jornal e um livro, dar um mergulho ou não. Acreditávamos que ia fazer friozinho.
Em meia hora já estava cada uma em seu pequeno quadrado, com a cabeça martelando as mesmas dúvidas de antes. Um pouco mais felizes, por conta das horas anteriores – que, afinal de contas, foram ótimas!
[A trilha sonora do papo + o título do texto foram descobertos graças à amiga Lelê, que me hipnotiza, de tempos em tempos insere músicas em minha mente, de modo que não saiam tão cedo.]
[O arquivo veio do amigo fontecerta, que envia músicas boas e oportunas, sempre.]
[Revisão de texto: Luciano Rosa. Muitagradicida.]
Até quando esperar_Plebe Rude
Estava eu, há poucos minutos, num momento mulherzinha com uma grande amiga: bebendo vinho com um filme há horas no pause, como se fôssemos engatar algum momento, mas não. Queríamos rir, falar, nos lamentar, reclamar, pedir opiniões, desabafar, checar e-mail, distrair.
Mania de amiga.
Perguntávamos uma à outra e, no fundo, uma perguntava a si própria: por que desencontro? Já não chega, já não levamos tudo o que podíamos? Quando arriscar, quando não ir, quando parar, quando se cansar? Ela tentou me (se) tranquilizar e falou:
– ..., se bem que uma amiga me disse que existem várias mulheres dentro da gente e, a cada história, matamos uma delas. Sempre na próxima história a gente mata mais uma.
Eu, ainda decidindo se estava diante de uma boa notícia ou não, perguntei:
– Será?
Um pequeno silêncio se formou (quem me conhece sabe que só é possível, comigo por perto, um bem pequeno silêncio; essa coisa de nãofalar nunca esteve entre minhas maiores aptidões) antes que eu concluísse:
– Tá bem. Eu topo. Mas pergunta pra essa amiga aí quantas a gente precisa aniquilar. Eu tenho de saber se pra mim faltam 15, 35, 80 ou 417!
Depois de algumas gargalhadas, ainda meio inconformadas e com os dentes levemente arroxeados de vinho, começamos a calcular quanto tempo ainda precisaríamos, tendo em vista que cada mulher dessa carece de uns seis meses de história, no mínimo, antes do último suspiro.
Estava vendo a hora em que marcaríamos um carnaval na Bahia para agilizar o processo: tentar matar umas seis safadas em uma semana. Uma espécie de paredão interior, um corredor polonês sentimental. Foi um tal de fazer contas, estimativas, pensar em desenvolver planilhas, investigar cotas.
Chegamos a uma conclusão que poderia ser resumida da seguinte forma: “Amiga, tâmu matando mulher dos outros, não é possível! Tem gente que não matou essa mulherada toda ainda e tá aí tirando onda”. E desandamos a lembrar histórias alheias inexplicavelmente românticas.
Pensei na última palhaça morta. Tal pensamento acabou por me lembrar que a sirigaita interna anterior à última, a mulher da vez na fila da entrada do meu coraçãozinho, foi maldita. A danada galhofou a minha vida, me fez descer abaixo do nível do mar, dilacerou partes essenciais de autoestima, avacalhou todas as possíveis emoções do tempo que ela durou.
Não, amiguinha. Só nessa história aí morreu o equivalente a uma tribo indígena. Não era uma só mesmo. Matei umas dez mulheres da Deborah Secco, outras 17 da Britney, sem contar a bela contribuição que dei para quitar as fêmeas interiores de quatro ou cinco colegas do trabalho.
Eu e minha amiga, na verdade, não chegamos a uma conclusão. Ela ficou de perguntar para a dona da teoria se havia alguma informação na internet, alguma dica sobre o grupo seguidor da crença das muitas-mulheres-que-habitam-nosso-corpo-e-vão-morrendo-a-cada-história-nossa-de-vida.
O filme também não vimos. O vinho acabou, a fumaça saiu pela janela, continuamos sem resposta para nossas questões mais profundas. O combinado foi que eu voltaria com um texto, e ela, com a resposta do grande enigma.
Não sei se quero saber. Sério. Medo de descobrir que, depois de essa de agora morrer, ainda me restarão 55. Porque é a minha cara a ordem de grandeza ser daí para cima. Apenas mais cinco ou logo-a-próxima seria moleza demais. E nesse campo, pelo menos, minha vida nunca desfrutou de muita moleza.
Abraçamo-nos, ela voltou para casa, não sem antes deixarmos combinada a praia do dia seguinte: topei a ida ao Leblon, dentro do fusca, com um jornal e um livro, dar um mergulho ou não. Acreditávamos que ia fazer friozinho.
Em meia hora já estava cada uma em seu pequeno quadrado, com a cabeça martelando as mesmas dúvidas de antes. Um pouco mais felizes, por conta das horas anteriores – que, afinal de contas, foram ótimas!
[A trilha sonora do papo + o título do texto foram descobertos graças à amiga Lelê, que me hipnotiza, de tempos em tempos insere músicas em minha mente, de modo que não saiam tão cedo.]
[O arquivo veio do amigo fontecerta, que envia músicas boas e oportunas, sempre.]
[Revisão de texto: Luciano Rosa. Muitagradicida.]
Até quando esperar_Plebe Rude
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Carol
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Está na hora de apagar a velinha...
Meu gigante tem olhos verdes e um cabelão, esvoaçante.
De sorrisão rasgado, roupas estampadas que, combinando com os cabelos, ventam na cadência dos passos largos proporcionados por pernas quase do meu tamanho (o ritmo de minhas pisadas triplicam quando passeamos juntas). Meu gigante taca na minha cabeça umas músicas com partes difíceis de esquecer. Daquelas que a gente fica cantando o mesmo verso por dias seguidos.
Meu gigante interior. Assim foi escalada Dusbalça, Dúsbal, Balceiro, ou apenas Lelê.
Lelê é linda e faz aniversário e eu adoro aniversários, gosto de ver as pessoas que eu amo ganhando presentes, abraços. Gosto de ver meus amigos sorrindo e amanhã é dia de Lelê e por isso pensei bastante num presente bom pras duas: bom de dar e de ganhar.
Não vejo a hora de abraçar essa moça que não presta (ela não é do bem, ok?), de brindar com choppinhos no Monteiro, no Antiga, com pastel, com cantoria. Com os amigos todos. Com amor de verdade saindo pelas orelhas, pelas mãos, pelas baforadas dos cigarros, pelas confissões de bêbado. Pelo prato do dia. Pela Lelê, meu gigantão interior, esvoaçante, linda, olhão verde e sorriso rasgado.
Parabéns, amigona! Loiviul total!!!
Livre-arbítrio hormonal.
Meus hormônios estão zonzos. A menstruação já tá aqui faz tempo e a rabugice persevera. A cólica está como se nada tivesse acontecido e os peitos... porra, eu posso jurar que meus peitos vão sair da blusa e invadir a cidade, atirando em todos os transeuntes. Tudo dói e é frágil.
Hormônios perdidos ao deus dará.
Se alguém encontrar, por favor, mande-os de volta para mim.
Hormônios perdidos ao deus dará.
Se alguém encontrar, por favor, mande-os de volta para mim.
nem tão estranho assim.
Ninguém explicou como seria. Ninguém ao menos avisou que aconteceria. Eu, normalmente, duvidaria.
E sem explicação, sem avisos ou dúvidas, o mundo virou de lado. Virou, espelhou, deu cambalhota, mordeu a própria orelha. O mundo que era um agora é outro, mudou de cor, de fuso, de lógica. O toque se fez novo, o cheiro passou a ser hipótese, o calor agora era um só: o outro vinha de um jeito que não dá pra explicar, nem em blog. Os caminhos passaram a ser engraçados, as novidades não faziam tanto sentido e a língua que eu falava ficou estrangeira.
Era como chegar a algum lugar bem desconhecido e se sentir à vontade: não tinham vergonhas ou referências, eram apenas beijos, sonhos, delícias, sorvetes. Sabe aquela vontade de mudar para o Japão, quando tudo vira enfadonho? Então! Fiz a mudança pro Japão de mim, posso afirmar, agora. Mudei de planos, dei meia volta, refiz o retorno e passei pela mesma guarita.
Alguns encontros fazem pensar, outros machucam, outros nem chegam a acontecer e mudam nossas vidas. Foram algumas horas para entender, engolir, suportar.
Precisei de algum tempo - e quem não precisaria? - para absorver esse susto, essa ebulição, essa liberdade de solteira, de moça, de namorada, de amante, de vontade. De ser o que se bebe, o que se come, de ser uma flor, ou uma lajota (caso eu queira descansar meio marrom). Eu posso escolher algumas coisas para que as que não dependem de mim fiquem mais legais ou encaminhadas.
Ou que pelo menos sejam apenas as coisas que não dependem de mim.
Vontade de sair voando.
Impressão de que é possível.
E sem explicação, sem avisos ou dúvidas, o mundo virou de lado. Virou, espelhou, deu cambalhota, mordeu a própria orelha. O mundo que era um agora é outro, mudou de cor, de fuso, de lógica. O toque se fez novo, o cheiro passou a ser hipótese, o calor agora era um só: o outro vinha de um jeito que não dá pra explicar, nem em blog. Os caminhos passaram a ser engraçados, as novidades não faziam tanto sentido e a língua que eu falava ficou estrangeira.
Era como chegar a algum lugar bem desconhecido e se sentir à vontade: não tinham vergonhas ou referências, eram apenas beijos, sonhos, delícias, sorvetes. Sabe aquela vontade de mudar para o Japão, quando tudo vira enfadonho? Então! Fiz a mudança pro Japão de mim, posso afirmar, agora. Mudei de planos, dei meia volta, refiz o retorno e passei pela mesma guarita.
Alguns encontros fazem pensar, outros machucam, outros nem chegam a acontecer e mudam nossas vidas. Foram algumas horas para entender, engolir, suportar.
Precisei de algum tempo - e quem não precisaria? - para absorver esse susto, essa ebulição, essa liberdade de solteira, de moça, de namorada, de amante, de vontade. De ser o que se bebe, o que se come, de ser uma flor, ou uma lajota (caso eu queira descansar meio marrom). Eu posso escolher algumas coisas para que as que não dependem de mim fiquem mais legais ou encaminhadas.
Ou que pelo menos sejam apenas as coisas que não dependem de mim.
Vontade de sair voando.
Impressão de que é possível.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
de 4 (atos).
Inexplicável.
Em palavras, gestos, sons, expressões, interpretações equivocadas, sonhos e suposições, construíra uma verdadeira história de amor em seus pensamentos. Uma história inventada, fantasiada, ilusória. E tão real que poderia descrever o gosto. O cheiro, o toque. Pensava se não estava maluca e, sim, tinha certeza de que estava. Nunca foi tão maluca e tão sensata, certa do que pensava e sentia. Tinha dúvidas e medos, queria previsões certeiras, planos escritos, resultados futuros. Era impossível, e tentava continuar pelo caminho que começara a ser traçado.
Sentia-o em cima, dentro, passando por ela. Sentia a língua babando seu corpo, suas mãos apertando, nariz respirando em suas coxas. Via fantasias realizadas, tudo era possível àquela impossibilidade, àquela distância, àquela quase mentira. A tão verdade que ali rondava, transitando por rodovias terrestres e aéreas, oscilava. Testava sua inteligência e autoconhecimento.
Incompreensível.
Penava. Precisava. Questão de salubridade. Agia como se não existissem limites, amarras, vidas reais. Dava seu jeito no ônibus, em casa, no trabalho, com os amigos. Olhava em volta e tinha o lado azul, quase seguro, das histórias de infância, da saudade que sentia, de sorrir para o olho fechando.
Ela era um sorriso, ele disse. Talvez por isso ela tenha chorado esse dia. De alegria, de saudade. Um choro pela crueldade que a situação vinha impondo, alimentando, evoluindo.
Necessário.
Não sabia mais fugir. Nem queria, e essa era a parte onde o querer estava à vontade: no persistir. Precisava continuar a tocar o corpo, ainda que por meio de uma louca exposição de desejos, de liberdades. Era uma história diferente, um apelo ao seu mais profundo compartimento. E ela vinha cedendo.
Hecatombe.
Ele tinha toda razão. Talvez essa fosse uma das poucas definições possíveis para ela, no momento.
Em palavras, gestos, sons, expressões, interpretações equivocadas, sonhos e suposições, construíra uma verdadeira história de amor em seus pensamentos. Uma história inventada, fantasiada, ilusória. E tão real que poderia descrever o gosto. O cheiro, o toque. Pensava se não estava maluca e, sim, tinha certeza de que estava. Nunca foi tão maluca e tão sensata, certa do que pensava e sentia. Tinha dúvidas e medos, queria previsões certeiras, planos escritos, resultados futuros. Era impossível, e tentava continuar pelo caminho que começara a ser traçado.
Sentia-o em cima, dentro, passando por ela. Sentia a língua babando seu corpo, suas mãos apertando, nariz respirando em suas coxas. Via fantasias realizadas, tudo era possível àquela impossibilidade, àquela distância, àquela quase mentira. A tão verdade que ali rondava, transitando por rodovias terrestres e aéreas, oscilava. Testava sua inteligência e autoconhecimento.
Incompreensível.
Penava. Precisava. Questão de salubridade. Agia como se não existissem limites, amarras, vidas reais. Dava seu jeito no ônibus, em casa, no trabalho, com os amigos. Olhava em volta e tinha o lado azul, quase seguro, das histórias de infância, da saudade que sentia, de sorrir para o olho fechando.
Ela era um sorriso, ele disse. Talvez por isso ela tenha chorado esse dia. De alegria, de saudade. Um choro pela crueldade que a situação vinha impondo, alimentando, evoluindo.
Necessário.
Não sabia mais fugir. Nem queria, e essa era a parte onde o querer estava à vontade: no persistir. Precisava continuar a tocar o corpo, ainda que por meio de uma louca exposição de desejos, de liberdades. Era uma história diferente, um apelo ao seu mais profundo compartimento. E ela vinha cedendo.
Hecatombe.
Ele tinha toda razão. Talvez essa fosse uma das poucas definições possíveis para ela, no momento.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Para onde?
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade recitando o poema
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade recitando o poema
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
A vida é tão rara...
Eu ando meio cansada. Cheia de sono nas horas erradas, agitação descabida, humor oscilante, impaciente.
Pensativa, porém.
Pessoas em volta, antes conhecidas, são agora estranhas e, muitas vezes, enfadonhas. Faltam argumentos e vontade de criá-los para me relacionar com o mundo. Nada de dramas, sensações de fim, de dor. Não peço mais afago às derrotas. A seta aponta para cima, a espontaneidade tenta me guiar e - graças! - muitas vezes, consegue.
Os amores me escapam, o trabalho me entedia; dormir e acordar têm sido exercícios diários, muitas vezes transformados em tarefas árduas e sem data para acabar.
Aí vem uma calma, um vento baiano soprando aqui dentro, uma voz tranquila, dizendo que a hora passa, o dia cai, que tudo acaba. Eu respiro, ouço a noite, subo a ladeira entoando o mantra.
Troco o "tudo de novo amanhã" por "tudo novo amanhã", mesmo que não venha, regando os sentimentos novos, que são melhores que os antigos, ainda que esses últimos tenham servido para brotarem os que eu quero.
Tudo se interliga, uma coisa chama a outra.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé.
Pensativa, porém.
Pessoas em volta, antes conhecidas, são agora estranhas e, muitas vezes, enfadonhas. Faltam argumentos e vontade de criá-los para me relacionar com o mundo. Nada de dramas, sensações de fim, de dor. Não peço mais afago às derrotas. A seta aponta para cima, a espontaneidade tenta me guiar e - graças! - muitas vezes, consegue.
Os amores me escapam, o trabalho me entedia; dormir e acordar têm sido exercícios diários, muitas vezes transformados em tarefas árduas e sem data para acabar.
Aí vem uma calma, um vento baiano soprando aqui dentro, uma voz tranquila, dizendo que a hora passa, o dia cai, que tudo acaba. Eu respiro, ouço a noite, subo a ladeira entoando o mantra.
Troco o "tudo de novo amanhã" por "tudo novo amanhã", mesmo que não venha, regando os sentimentos novos, que são melhores que os antigos, ainda que esses últimos tenham servido para brotarem os que eu quero.
Tudo se interliga, uma coisa chama a outra.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé.
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Carol
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terça-feira, 25 de agosto de 2009
Melhor que caminhar vazio
Caiu como uma luva esse conto. No dia que foi, na hora que foi, parecia estar esperando ser lido por mim. Gana de compartilhar com todos, da mesma forma que fizeram comigo, trazendo essa maravilha às minhas mãos.
Espero que gostem.
Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".
_ Por Caio Fernando Abreu_
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)
Sonhos, na voz do Moska
Espero que gostem.
Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".
_ Por Caio Fernando Abreu_
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)
Sonhos, na voz do Moska
Realizando desejos
Estava sozinha, ainda que com uns 5 ou 6 amigos. Era show e ela dançava aleatória, sem se preocupar muito com o que tinha em volta. Deve ter ficado alguns minutos rodando em volta de um ponto qualquer, pois quando levantou a cabeça para prender os cabelos num rabo de cavalo, se deparou com um homem parado, em frente a ela, observando-a dançar.
- Não acredito...
- Nem eu. Cheguei no Rio hoje, meio de supetão. Não deu para avisar nada...
- Não sei o que dizer.
- Nem eu. Vamos dar um abraço, para começar?
Ela agora estava no meio de um descampado silencioso. Não havia mais nada nem ninguém, seus sentidos todos estavam focados naquele homem que era real a partir do all star, passando pelas calças jeans largas seguidas das blusas sobrepostas, chegando até o cavanhaque, que, na direção do seu olhar, iniciava o rosto que há anos gostaria de tocar.
Pensou em como esse encontro era, até então, improvável. O quanto o abraço que estava acontecendo a cada milésimo de segundo era digno de pedido de gênio da lâmpada. O quanto era muito mais fácil ela não estar ali, naquele lugar, naquele show. Não gostava da banda e cedeu apenas por querer muito sair para dançar naquela noite.
Tratava-se de um encontro inesperado, por qualquer ângulo que alguém poderia analisá-lo.
Abraçava-o sem ter coragem de largar por não fazer ideia do que deveria vir depois do abraço. Um beijo apaixonado? Uma gargalhada feliz, uma piada sobre o que aquilo ali significava? Sentia as costas, o peito, a barriga. Um restinho (ou um início?) de barba, encostando sua testa.
Desvencilharam os braços, mas os olhos, úmidos, admiravam-se.
- Como você veio parar aqui? Que bom isso, deve ser mentira...
- Eu vim porque cheguei e não te vi online. Chico e Carla vinham para cá e eu acabei topando. Parece mesmo mentira. Eu lembro de você ter falado que achava esses caras meio pela-sacos.
- Eu acho. Acabei vindo porque vários amigos ligaram chamando e eu achei que poderia ser uma boa opção para distrair.
Era nítido que eles não sabiam o que fazer e prolongaram o quanto podiam aquela série de motivos que os levaram a estar naquele show, naquele dia, na mesma fileira.
Até que não puderam mais e agora estavam ali, de carne, osso e nervosismo. E se olharam em silêncio.
- Não acredito...
- Nem eu. Cheguei no Rio hoje, meio de supetão. Não deu para avisar nada...
- Não sei o que dizer.
- Nem eu. Vamos dar um abraço, para começar?
Ela agora estava no meio de um descampado silencioso. Não havia mais nada nem ninguém, seus sentidos todos estavam focados naquele homem que era real a partir do all star, passando pelas calças jeans largas seguidas das blusas sobrepostas, chegando até o cavanhaque, que, na direção do seu olhar, iniciava o rosto que há anos gostaria de tocar.
Pensou em como esse encontro era, até então, improvável. O quanto o abraço que estava acontecendo a cada milésimo de segundo era digno de pedido de gênio da lâmpada. O quanto era muito mais fácil ela não estar ali, naquele lugar, naquele show. Não gostava da banda e cedeu apenas por querer muito sair para dançar naquela noite.
Tratava-se de um encontro inesperado, por qualquer ângulo que alguém poderia analisá-lo.
Abraçava-o sem ter coragem de largar por não fazer ideia do que deveria vir depois do abraço. Um beijo apaixonado? Uma gargalhada feliz, uma piada sobre o que aquilo ali significava? Sentia as costas, o peito, a barriga. Um restinho (ou um início?) de barba, encostando sua testa.
Desvencilharam os braços, mas os olhos, úmidos, admiravam-se.
- Como você veio parar aqui? Que bom isso, deve ser mentira...
- Eu vim porque cheguei e não te vi online. Chico e Carla vinham para cá e eu acabei topando. Parece mesmo mentira. Eu lembro de você ter falado que achava esses caras meio pela-sacos.
- Eu acho. Acabei vindo porque vários amigos ligaram chamando e eu achei que poderia ser uma boa opção para distrair.
Era nítido que eles não sabiam o que fazer e prolongaram o quanto podiam aquela série de motivos que os levaram a estar naquele show, naquele dia, na mesma fileira.
Até que não puderam mais e agora estavam ali, de carne, osso e nervosismo. E se olharam em silêncio.
domingo, 23 de agosto de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Os dois sentidos
Dessa vez, o tato passou longe. Apenas olhares separados por um cristal líquido, justamente o mesmo que propiciou o encontro.
Ouvidos e boca já haviam ligado os dois - sem sussurros, beijos ou lambidas - e um conhecia o êxtase do outro já há alguns anos, sem cheiro, sem mãos.
Um sentimento indefinível, perfeito pela distância, temperado pela impossibilidade da concretização do que deveria ser, do que queriam que fosse. Uma angústia de não saber do gosto, um prazer por gostar tanto daquele corpo que carregava um sorriso, um olhar, um tesão.
Sentimentos confusos, patéticos, até. Se lhe contassem essa história como experiência alheia, teria rido, sem dúvidas. Mas vivia emoções adolescentes, sofrimentos inexplicáveis, urgências apaixonadas. Precisavam ter-se, urgiam por um encontro. O corpo gritava, explodia, suava. Bastava que o milagre os pusesse lado a lado, pois o resto estava no ar, dentro de cada um.
Ouvidos e boca já haviam ligado os dois - sem sussurros, beijos ou lambidas - e um conhecia o êxtase do outro já há alguns anos, sem cheiro, sem mãos.
Um sentimento indefinível, perfeito pela distância, temperado pela impossibilidade da concretização do que deveria ser, do que queriam que fosse. Uma angústia de não saber do gosto, um prazer por gostar tanto daquele corpo que carregava um sorriso, um olhar, um tesão.
Sentimentos confusos, patéticos, até. Se lhe contassem essa história como experiência alheia, teria rido, sem dúvidas. Mas vivia emoções adolescentes, sofrimentos inexplicáveis, urgências apaixonadas. Precisavam ter-se, urgiam por um encontro. O corpo gritava, explodia, suava. Bastava que o milagre os pusesse lado a lado, pois o resto estava no ar, dentro de cada um.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Cariocas são bacanas...
Quinta-feira. Dezoito horas e dez minutos. Metrô da Cinelândia. Direção Zona Norte.
Primeiro trem: im-pos-sí-vel.
Segundo trem: há de ser esse. Não há tempo hábil para mais uma espera. O terapeuta me espera, na Tijuca, às dezenove.
Muita gente.
Estação Carioca, sensação de arrastão, de muvuca do foo fighters no Rock in Rio. Pessoas dominó, dois ou mais corpos ocupando o mesmo espaço - não existe lei da física no metrô a essa hora.
A voz eletrônica solicita, automática:
Prezado cliente. Ofereça ajuda aos idosos, gestantes e pessoas com necessidades especiais
A imprensada cliente aqui pensa que todos ali, sem exceção, naquele momento, possuem necessidades especiais – respirar é preciso e impraticável. Olho para baixo e não vejo pés, apenas um breu. Medo. Rezo um pai-nosso. Outro. Mais um. Mentalizo alívio.
Alívio, alívio, alívio, alívio. Alívio, alívio, alívio, A-lí-vi-o.
(essa sou eu, usando o mesmo método que tenho praticado para as fortes cólicas menstruais irem embora sem remédio.)
Silêncio espremido no carro do metrô.
Até que, como num quadrinho do Ziraldo daqueles de várias cabecinhas iguais e um balão que não se sabe de qual bolinha saiu, ouve-se uma voz:
- Aê, meu amigo, tu não lava o suvaco não? Sacanagem, bota um alho aí dentro dessa jaqueta que aqui tá foda, com esse braço levantado.
E todos riem, até quem não se conhece. Eu também. Um viva para a descontração carioca.
Estação Central. Respirar fica mais fácil.
Estação Estácio. Já posso me movimentar normalmente.
.Alívio.
Primeiro trem: im-pos-sí-vel.
Segundo trem: há de ser esse. Não há tempo hábil para mais uma espera. O terapeuta me espera, na Tijuca, às dezenove.
Muita gente.
Estação Carioca, sensação de arrastão, de muvuca do foo fighters no Rock in Rio. Pessoas dominó, dois ou mais corpos ocupando o mesmo espaço - não existe lei da física no metrô a essa hora.
A voz eletrônica solicita, automática:
Prezado cliente. Ofereça ajuda aos idosos, gestantes e pessoas com necessidades especiais
A imprensada cliente aqui pensa que todos ali, sem exceção, naquele momento, possuem necessidades especiais – respirar é preciso e impraticável. Olho para baixo e não vejo pés, apenas um breu. Medo. Rezo um pai-nosso. Outro. Mais um. Mentalizo alívio.
Alívio, alívio, alívio, alívio. Alívio, alívio, alívio, A-lí-vi-o.
(essa sou eu, usando o mesmo método que tenho praticado para as fortes cólicas menstruais irem embora sem remédio.)
Silêncio espremido no carro do metrô.
Até que, como num quadrinho do Ziraldo daqueles de várias cabecinhas iguais e um balão que não se sabe de qual bolinha saiu, ouve-se uma voz:
- Aê, meu amigo, tu não lava o suvaco não? Sacanagem, bota um alho aí dentro dessa jaqueta que aqui tá foda, com esse braço levantado.
E todos riem, até quem não se conhece. Eu também. Um viva para a descontração carioca.
Estação Central. Respirar fica mais fácil.
Estação Estácio. Já posso me movimentar normalmente.
.Alívio.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
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